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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Memórias #10 - Praxe

Numa altura em que tanto se fala de praxes decidi partilhar memórias que tenho da minha.
O primeiro contacto que tive foi no dia 11 de Outubro de 2000. Como é que sei? Sei porque nesse dia ainda tinha 17 anos e no seguinte completava os 18.
Fui com o meu papi tratar da inscrição no Curso de Gestão de Empresas na Universidade Portucalense Infante D. Henrique. Estava na secretaria quando me abordaram para confirmar a minha situação… caloira! E foram logo doutores do meu curso!
O meu pai ainda teve pachorra para aguardar no carro enquanto fui a uma sala “conhecer” alguns doutores e ter conhecimento de algumas regras que iriam ditar os tempos mais próximos.
Automaticamente tornei-me amiga íntima da mascote do curso:
 

E até fui batizada pelo nome da mesma: Jurema
Nesse dia cheguei a casa com algum receio, mas também com curiosidade. Já havia pessoas com quem simpatizava mais e outras que nem por isso.
Depois disso vieram dias de grande desânimo. Sou do mais tímido que existe à face da terra, e se ainda o sou hoje, imaginem como era com 18 anos. Tinha vergonha de levantar o olhar, falar para alguém, fazer alguma pergunta, tudo… Era timidez ao mais alto nível. Isto naturalmente dificultou-me a vida.
(Breve à parte: Era tão tímida, tão tímida, que na altura, ainda namorava há pouco tempo com o RP quando estávamos na casa dele um dia à tarde e ele estava com uma mão sobre a minha sobre a minha perna. A certa altura comecei a ficar com a perna dormente, devido à posição em que estava, mas não quis incomodar, tive vergonha de sequer mexer a perna, estica-la ou qualquer coisa. Resultado? Quando me levantei quase que ficava estatelada no meio do chão, a minha perna ficou feita plasticina. QUE VERGONHA!!! Disfarcei, fiz que conta que não se tinha passado nada e quando cheguei a casa já quase não conseguia caminhar. Dei cabo dos tecidos moles no tornozelo direito! Ligaduras e muletas e ainda tenho dores hoje com alguns movimentos e mudanças de tempo. Pronto, só para provar que era mesmo tímida!)
Até que um dia fomos praxados no Jardim de Arca D’Água. E para dar a devida homenagem à mascote, uma vez que era sua homónima, insistiam incessantemente comigo para cacarejar. Eu cacarejava baixinho e queriam que eu cacarejasse alto. Não estava para isso, não sentia o espírito, não sei explicar… Sei que de castigo me mandaram deitar na relva e pensar na vida. Estava completamente fora do meu elemento, completamente desconfortável e com vontade de desistir. Mas houve um doutor (Obrigada Poborsky!) que se aproximou de mim e teve comigo uma conversa mano a mano. Disse-me que tudo o que faziam era para nos integrar, que tinha de saber levar a coisa com o espírito da brincadeira,…
Depois daquele discurso todo disse-me para me levantar e ir a cacarejar até ao outro lado do jardim e voltar. Assim fiz, só que cacarejava baixinho. E só ouvia:
“Alto! Mais alto! Mais alto Jurema! Mais alto!”
Estão a ver um filme tipo Rocky, quando ele em combate começa a relembrar imagens que lhe dão a força para vencer? Foi do género. Comecei a relembrar e a interiorizar as palavras que o doutor me tinha dito… respirei bem fundo e fiz um COROCOCÓ que eu acho que se ouviu na Universidade. E aí aconteceu uma espécie de clique. Toda a gente aplaudiu e deu mais força e continuei a cacarejar como se não houvesse amanhã.
Nesse dia encheram-me a mim e aos outros o cabelo de coisas que devem ter variado entre iogurte e alho, passando por molhos e sei lá mais o quê. Mas querem saber? Tive de entrar em 2 autocarros para voltar para casa e vinha completamente orgulhosa (só com o devido cuidado para não encostar com a cabeça em lado nenhum). Tive de lavar o cabelo umas 30 vezes, mas fi-lo de sorriso no rosto.
Depois disso, houve o dia do pijama, em que todos devíamos levar um pijama para vestir na universidade. Eu levei não só o pijama, mas também uma chupeta e um peluche. No dia em que os homens se deviam mascarar de mulheres e vice-versa, aprumei-me com pompa e circunstância. E tinha tantos outros exemplos…
Como em tudo, havia os parvos obviamente, mas regra geral acho que fui muito sortuda. Nunca me senti humilhada e poucas foram as coisas que não fiz. Quando isso aconteceu, respeitaram-me. Obviamente não dizia que não a tudo como vi alguns a fazer, mas tinha os meus princípios e limites.
Quando chegou a Queima das Fitas, chegou também a eleição do Mister e da Miss Caloiro(a). Alguns doutores perguntaram-me quem achava que ia ser. Disse logo que seria a D. – miúda mais gira, mais jeitosa e mais cheia de pinta do grupo. Era das tais que dizia que não a tudo, mas para Miss o que conta é o aspeto exterior; e o Mister seria o I. – miúdo mais porreiro, divertido e com o D. faziam uma dupla de rir até cair. O Mister Caloiro foi o que julguei que iria ser. A Miss Caloira acabei por ser eu. Eu? Miss Caloira? Provavelmente  a mais gorda do grupo… Sim! É verdade! Mais tarde disseram-me que só podia ser eu, porque ninguém tinha vivido a praxe como eu. Really???
É das coisas que me orgulho! Por todos os obstáculos que tive de vencer, pela mudança que isso gerou em mim. E a verdade é que a mim me facilitou o processo de integração.
Também me teria integrado sem a praxe, mas não teria estas memórias. Felizmente tive muita sorte de não humilhada, não me sentir obrigada a fazer nada que não quisesse. As mulheres são bem mais cabras, mas é muita garganta. Lembro-me de me dizerem que quando fosse praxar ia ser lixada. Nunca praxei.
Acho que praxe faz todo o sentido com regras e onde deve imperar o bom senso. É como tudo, há pessoas a quem o poder sobe à cabeça e há pessoas que julgam que podem tratar os outros como formigas ou pior. Não sou a favor do fim das praxes, provavelmente pela experiência que tive. Acho que se perdia a tradição e aquilo que significa, um espírito de grupo que se cria. Mas a humilhação e a colocação em perigo da integridade física e psicológica de um caloiro não faz sentido nenhum. Se houvesse alguma forma de controlar isso, seria o ideal, porque abolir as praxes é na minha opinião anular uma parte importante da vida académica.
O que aconteceu no Meco, para mim foi pura e simplesmente crime. Tal como sei que acontece noutras universidades e isso sim, devia ser abolido. As Universidades deviam incrementar o controlo destas situações, deviam estar mais a atentas e aumentar a abertura para as pessoas que se querem queixar sem serem retaliadas por isso. Acho também que ninguém devia ser praxado contra a sua vontade, ou ameaçado por não o querer fazer.
Mas é a minha opinião…

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