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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

2 meses



Faz hoje dois meses em que me enfureci no hospital com o médico por terem transferido o meu irmão para a enfermaria. Uma pessoa sem qualquer autonomia para pedir ajuda caso precisasse colocada numa enfermaria ao fundo do corredor… foi demasiado para a luta que tratava há meses e acabei por, ainda que de forma controlada, dizer algumas verdades e exteriorizar alguma da revolta que sentia com injustiça da vida.
Faz hoje dois meses em que coloquei as mãos (enluvadas porque não lhe podia tocar diretamente e mesmo os beijos que lhe dava eram através de uma máscara) no rosto do meu irmão e lhe pedi desculpa por não ter feito mais, por de alguma forma, em algum momento, não ter tomado alguma posição/decisão que o podia ter salvado.
Faz hoje dois meses em que percebi que não o iria ter por muito mais horas ou dias com sorte. Com uma vontade tremenda de estar ao lado dele e simultaneamente aflita com bata e máscara e luvas vim embora com lágrimas no rosto, dor no peito inexplicável e preocupação permanente.
Faz hoje dois meses que recebi uma chamada a pedir que me dirigisse ao hospital o mais rápido possível. E aí percebi que mesmo a minha estimativa mais negativa não me prepararia para uma morte tão precoce.
E hoje, dois meses depois, dói mais do que consigo explicar. Continuo a perguntar-me se é mesmo verdade, se isto não passa de uma brincadeira sem piada alguma mas que brevemente vai terminar. Sinto demasiado a falta do meu irmão. Sinto um buraco no peito que nunca pensei ser possível sentir.
As pessoas adoram dizer que há que caminhar em frente, o que está feito, feito está! Que devo valorizar o que a vida me deu e dá e que me devo focar apenas na vida que trago dentro de mim. São tontas… e espero que assim continuem porque é que sinal de que nunca vivenciaram dor idêntica.
De alguma forma, muitas vezes sem saber bem como, todos os dias acordo e levanto-me, rio-me com as piadas que ouço, como, convivo, e tento viver da melhor forma possível. Tento ser o que todos esperam que seja mesmo sem saber exatamente o que isso é. E acredito que por vezes acham que me esqueci por um momento da ausência do meu irmão.
São dois meses que parecem dois dias. Continuo a viver demasiados momentos de um passado muito recente. É uma ausência muito presente.
São dois meses de muita saudade, dor e luta constante.
Mas felizmente tive a sorte de, ainda que por tempo muito limitado, tê-lo na minha vida e por haver boas memórias para relembrar. E depois destes dois meses é isso que hoje e sempre vou fazer…

4 comentários:

  1. Sabes que fizeste o possível para o apoiar o teu irmão...
    Espero que o tempo atenue essa dor!!!
    Beijinho

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    1. Acho que só o tempo acalmará esta revolta porque a dor e a saudade acho que nunca vai atenuar. Obrigada.
      Beijinho

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